S. SISENANDO, PADROEIRO DA CIDADE DE BEJA
Sisenando nasceu e viveu na vetusta Pax Julia romana, na primeira metade do século IX, e morreu mártir em Córdoba, em 851, cerca de cem anos depois de Isidro Pacense (712-754), o último bispo visigótico da dita cidade. É, na verdade, a prova provada de que existia em Beja uma igreja visigótica viva e atuante, mesmo sob o domínio muçulmano.
Embora houvesse em Beja uma escola teológica, Sisenando, não ignorando os riscos que corria, partiu para Córdoba, sem alforje e sem bordão, mas com o fogo de Jesus no coração. Córdoba era a grande capital do islamismo na Península. Os seus monumentos, as suas escolas e o cultivo das ciências, das artes e da cultura eram a afirmação de uma civilização que se julgava superior à cristã. Nada impediu o progresso de Sisenando nas letras e na virtude, apesar do ambiente hostil, licencioso e persecutório que o rodeava e o obrigava a refugiar-se em casa.
É nas dificuldades que se «geram os peitos fortes». Uma vez em Córdoba, alistou-se na igreja de Santo Acisclo, mártir ilustre da perseguição de Diocleciano. Tornando-se a perseguição mais fanática contra os cristãos no reinado de Abderramão II, Sisenando, levado pelo seu zelo e determinação, e pensando ser esse o melhor serviço a Deus, foi procurar o martírio e a palma da vitória. Entrou numa mesquita, zombou do profeta Maomé e do Alcorão, foi preso e executado no dia 16 de julho de 851, nas margens do Guadalquivir, e o seu corpo foi lançado às águas. Passados alguns dias, foi encontrado entre pedregulhos e arbustos por mulheres que lavavam roupa ali perto.
O exemplo de Sisenando é sinal do ambiente militante e do espírito invencível que animava a comunidade moçárabe de Beja em tempo de perseguição. Santo Eulógio, nomeado arcebispo de Toledo, relatou estes acontecimentos de glória da Igreja de Córdoba em meados do século IX. A obra ficou inédita até ao século XVI, tendo sido dada à estampa pelo historiador espanhol Ambrósio de Morales. Foi enorme a impressão que o facto causou em Espanha e, em Beja, de modo especial. Beja emocionou-se com este gesto martirial de um dos seus mais ilustres filhos. O próprio S. Eulógio, mestre e amigo de Sisenando, mantinha pelo jovem pacense uma dedicação terna e paternal e uma profunda admiração, dadas a nobreza e a espiritualidade que nele resplandeciam. Na sua obra monumental Memoriale Sanctorum, onde escreveu as atas dos mártires de Córdoba e também as de S. Sisenando, chama-lhe «Sanctissimus Sisenandus Juvenis ex oppido pacense ortus», isto é, «Santíssimo Sisenando, oriundo de Pax Julia».
O padre Manuel Feio, mestre em Teologia pela Universidade de Coimbra, ao tempo pároco da freguesia de S. Salvador, da cidade de Beja, não só traduziu as atas para português, como encabeçou um grande movimento em prol do culto de S. Sisenando. A seu pedido, com o apoio do arcebispo de Évora, D. Teotónio de Bragança, e do próprio rei D. Filipe II, alcançou a canonização de Sisenando, com honras de mártir, em 1597, por breve de Clemente VIII. Este facto foi confirmado no ano seguinte, a 13 de fevereiro, com a publicação do decreto de confirmação do culto oficial do mártir S. Sisenando. Este acontecimento jubiloso levou o mestre Manuel a promover uma procissão comemorativa, para a qual obteve provisão do rei Filipe II, passada a 6 de junho de 1598. Impetrou de Sua Santidade a ereção de uma confraria para espalhar o seu culto e propôs aos vereadores da Câmara que assumissem o encargo de a dirigir, o que foi unanimemente aceite. A solene procissão realizou-se a 16 de julho de 1598. Mas fez mais. Com o apoio do Senado da Câmara, do arcebispo de Évora e do bispo e cabido de Córdoba, pediu e conseguiu uma relíquia, que chegou à cidade de Beja a 24 de junho de 1600, trazida pelos vereadores Jorge Bocarro Pegas e pelo seu neto André Pegas Vilarinho. Vários mordomos construíram uma pequena igreja na Rua Cega, nas casas onde a tradição diz que nasceu e viveu Sisenando.
A pedra de fundamento foi lançada a 20 de maio de 1652 pelo novo pároco de S. Salvador, Miguel Jácome Esquível, doutor em Teologia por Évora. Deve-se ainda a Esquível o grande acontecimento que levou o clero, a nobreza, o povo e as autoridades da cidade a proclamar oficialmente S. Sisenando seu padroeiro, a 24 de outubro de 1651.
Texto: Cónego António Mendes Aparício




