Biblioteca José Saramago acolheu conferência sobre inteligência artificial, dignidade humana e futuro comum
A Biblioteca José Saramago, em Beja, acolheu na sexta-feira, 3 de julho, a conferência «Permanecer Humanos: Dignidade, Tecnologia e Futuro Comum», proferida pelo Padre Luís M. Figueiredo Rodrigues, Diretor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa.
A iniciativa, que reuniu cerca de 60 participantes, resultou de uma organização conjunta da Diocese de Beja, através da Escola de Cultura Teológica, e da Câmara Municipal de Beja, proporcionando um espaço de reflexão sobre os desafios colocados pela inteligência artificial à luz da encíclica Magnifica Humanitas, do Papa Leão XIV.
Partindo da questão «Que tipo de humanidade queremos construir?», o conferencista sublinhou que o verdadeiro desafio contemporâneo não reside apenas no desenvolvimento tecnológico, mas sobretudo na capacidade de orientar esse progresso para o serviço da pessoa humana e do bem comum. A encíclica foi apresentada como um texto dirigido não apenas aos crentes, mas a toda a sociedade, propondo um diálogo entre a tradição cristã, a razão pública e a responsabilidade ética partilhada.
Ao longo da conferência, foi destacado o contributo da Doutrina Social da Igreja como uma autêntica «gramática da dignidade humana», oferecendo princípios de discernimento para enfrentar as novas questões suscitadas pela economia digital, pela inteligência artificial, pela automatização do trabalho e pela crescente concentração do poder tecnológico.
Recorrendo às imagens bíblicas de Babel e de Jerusalém, o orador propôs duas formas distintas de pensar o futuro tecnológico: uma lógica de concentração de poder, uniformização e domínio, e outra fundada na participação, na corresponsabilidade e na construção do bem comum. Defendeu, por isso, que a questão decisiva não consiste em ser favorável ou contrário à inteligência artificial, mas em discernir que modelo de sociedade se pretende edificar através dela.
A conferência abordou igualmente os benefícios que a inteligência artificial pode oferecer em áreas como a saúde, a educação, a investigação científica e a administração pública, sem deixar de alertar para riscos como a perda do pensamento crítico, a aparência enganadora de objetividade dos algoritmos, a simulação das relações humanas, a opacidade dos processos de decisão automatizados e o agravamento de desigualdades sociais.
Foi ainda salientada a necessidade de garantir mecanismos de responsabilização, transparência e fiscalização democrática dos sistemas de inteligência artificial, recusando a ideia de que as decisões algorítmicas possam dispensar a responsabilidade humana. Outro dos eixos centrais da intervenção incidiu sobre a defesa da verdade, da educação e da democracia na era digital, apelando à formação de cidadãos capazes de pensar criticamente e de preservar espaços de reflexão, diálogo e discernimento.
Na parte final da conferência, o Padre Luís M. Figueiredo Rodrigues apresentou a Magnifica Humanitas como uma encíclica profundamente esperançosa, que não rejeita a inovação tecnológica, mas procura orientá-la segundo critérios de justiça, solidariedade e respeito incondicional pela dignidade de cada pessoa. Concluiu deixando cinco grandes interrogações para orientar a leitura da encíclica e o debate público: que ideia de pessoa está inscrita nas nossas tecnologias; quem participa nas decisões; quem permanece invisível; que verdade sustenta a vida comum; e que esperança orienta o futuro da humanidade.
Após a conferência, os participantes tiveram oportunidade de colocar questões e partilhar algumas opiniões e reflexões sobre a Magnifica Humanitas, num diálogo que prolongou a reflexão iniciada pelo conferencista.
Entre os presentes esteve D. Fernando Paiva, Bispo de Beja. Antes do encerramento, o Padre Pedro Rodrigues, diretor e professor da Escola de Cultura Teológica, dirigiu uma palavra de agradecimento ao conferencista, às entidades parceiras e a todos os participantes pela presença e pelo interesse demonstrado.
Na intervenção de encerramento, D. Fernando Paiva manifestou o seu apreço pela forma como a encíclica foi apresentada e pelos temas desenvolvidos ao longo da conferência. O Bispo de Beja agradeceu ao Padre Luís M. Figueiredo Rodrigues pela qualidade da reflexão proposta, ao Padre Pedro Rodrigues pela iniciativa promovida pela Escola de Cultura Teológica e à Dra. Paula Santos, diretora da Biblioteca José Saramago, pelo acolhimento e pela disponibilidade manifestada para receber futuras iniciativas deste género.
A sessão terminou com um renovado apelo à responsabilidade comum de crentes e não crentes na construção de um futuro em que a técnica permaneça ao serviço da vida, a inovação seja acompanhada pela justiça e a dignidade da pessoa humana continue a constituir o critério fundamental de todo o progresso.
















